O padre Danilo César, da paróquia de Areial, na Paraíba, fechou um acordo de retratação com a família da cantora Preta Gil em um processo cível por danos morais que tramita na 41ª Vara da Comarca do Rio de Janeiro. O clérigo havia sido denunciado por intolerância religiosa após falas feitas durante uma missa em 2025. O acordo foi firmado no dia 11 de abril e ainda precisa ser homologado pela Justiça.
No acordo, o padre se comprometeu a fazer um pedido público de desculpas durante uma missa transmitida no canal do YouTube da Paróquia de Areial. A retratação deverá citar nominalmente familiares da artista, incluindo o pai, o cantor Gilberto Gil. A escolha da transmissão online ocorre porque as declarações ofensivas também foram feitas nesse ambiente. O padre reconheceu o teor ofensivo das falas e o sofrimento causado à família, evitando assim o pagamento de R$ 370 mil em indenização.
Após a homologação, Danilo César terá até 30 dias úteis para cumprir a retratação, sob pena de multa de R$ 250 mil. Também foi acordada a doação de oito cestas básicas a uma instituição indicada pela família Gil, em até dez dias. A Diocese de Campina Grande, responsável pela paróquia, também integra o acordo.
Na esfera criminal, o padre já havia firmado, em fevereiro, um acordo de não persecução penal com o Ministério Público Federal na Paraíba, comprometendo-se a cumprir uma série de medidas educativas. Entre elas, participação em ato inter-religioso (que contou com a presença remota de Gilberto Gil), leitura e produção de resenhas sobre obras relacionadas à temática racial e religiosa, além da realização de 60 horas de cursos sobre intolerância religiosa.
O acordo com o MPF também inclui a produção de resenhas de obras como “A Justiça e a Mulher Negra”, de Lívia Santana, “Cultos Afro-Paraibanos”, de Valdir Lima, e do documentário “Obatalá, o Pai da Criação”. O padre deve ainda comprovar ao menos 20 horas de cursos até o fim de junho, além de pagar R$ 4.863 à Associação de Apoio aos Assentamentos e Comunidades Afrodescendentes (AACADE).
O caso teve início em 27 de julho de 2025, quando, durante uma homilia transmitida ao vivo, o padre comentou a morte de Preta Gil, vítima de câncer colorretal, associando a fé da artista em religiões de matriz afro-indígena ao sofrimento e à morte. Em uma das falas, ele questionou: “Cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil?”.
As declarações também atingiram fiéis presentes na celebração, quando o padre classificou práticas religiosas afro-indígenas como “coisas ocultas” e chegou a desejar que “o diabo levasse” quem as procurasse. O conteúdo gerou forte repercussão e foi retirado do ar.
A denúncia foi formalizada por Rafael Generiano, presidente da Associação Cultural de Umbanda, Candomblé e Jurema Mãe Anália Maria, que registrou boletim de ocorrência por intolerância religiosa. O caso passou a ser investigado e resultou nos acordos nas esferas cível e criminal.




