O padre Danilo César, da Paróquia São José, em Areial (PB), apresentou à Justiça sua defesa formal na ação movida por familiares da cantora Preta Gil. A contestação foi protocolada no último dia 10 de fevereiro e diz respeito às declarações feitas pelo religioso durante uma missa celebrada em 20 de julho de 2025, horas após ser noticiada a morte da artista, vítima de câncer.
São autores da ação o pai da cantora, Gilberto Gil, a madrasta Flora Gil, os irmãos Nara, Marília, Bela, Maria, Bem e José, além do filho da artista, Francisco Gil. A família pede R$ 370 mil por danos morais, sob a alegação de que o padre extrapolou os limites da liberdade de expressão ao ironizar a fé de matriz africana seguida por Preta Gil e seus familiares.
Entenda o caso
O processo teve início após a repercussão de uma fala do religioso durante a celebração, transmitida ao vivo pelo canal da paróquia no YouTube. Na ocasião, o padre declarou:
“Deus sabe o que faz. Se for para morrer, vai morrer […] Qual o nome do pai de Preta Gil? Gilberto. [Ele] fez uma oração aos orixás. Cadê esses orixás, que não ressuscitaram Preta Gil? Já enterraram?”
A declaração foi interpretada por familiares e por parte do público como desrespeitosa e ofensiva à religião de matriz africana professada pela artista. Após denúncia e abertura de inquérito, o vídeo foi retirado do ar.
Na ação, os familiares sustentam que a fala feriu a imagem, a memória e a religiosidade de Preta, defendendo que houve abuso no exercício da liberdade religiosa.
A defesa do padre
Nos documentos apresentados à Justiça, Danilo César nega ter cometido qualquer ato ilícito. Ele argumenta que a fala precisa ser analisada dentro de seu “contexto religioso”, uma vez que ocorreu em templo católico, durante culto interno e direcionado à própria comunidade de fiéis.
Segundo o padre, não houve dolo nem intenção de atingir ou ofender pessoas de outras crenças, já que elas não eram destinatárias da mensagem. Ele afirma que o trecho que viralizou nas redes sociais fazia parte de um momento pastoral com finalidade de ensinamento, cujo objetivo era reforçar conceitos da doutrina da Igreja Católica.
Danilo também sustenta que as expressões utilizadas tinham caráter didático, buscando facilitar a compreensão dos fiéis sobre princípios teológicos. Em sua defesa, afirma que sua conduta se limitou ao campo da crítica teológica e da exortação pastoral, estando amparada pelo direito constitucional à liberdade religiosa.
O religioso reconheceu a sensibilidade do tema e o impacto da morte da cantora, mas reforçou que não incitou discriminação, violência ou tratamento hostil contra adeptos de outras religiões.
Repercussão e alegação de manipulação
Outro ponto destacado na contestação é a alegação de que a repercussão negativa não teria sido provocada diretamente por ele, mas por terceiros que teriam recortado o vídeo, retirando a fala de seu contexto original e disseminando o conteúdo de forma viral nas redes sociais.
Para sustentar sua argumentação, o padre anexou à defesa uma coletânea de documentos de teor doutrinário, que, segundo ele, demonstrariam que suas declarações estavam alinhadas aos ensinamentos da Igreja Católica.
Acordo com o MPF
Além da ação cível por danos morais, Danilo César também foi denunciado por intolerância religiosa em razão do episódio. No entanto, ele firmou acordo com o Ministério Público Federal (MPF), comprometendo-se a cumprir condições estabelecidas para não responder criminalmente pelo caso.
A ação movida pela família de Preta Gil segue em tramitação na Justiça.






